09.25.2007 - 2007-09-25 LISBON: National Stadium / Police em Lisboa: reportagem...
Police em Lisboa: reportagem...
Regresso feliz e sem lágrimas para Sting, Andy Summers e Stewart Copeland. Amigos como dantes? Veja o alinhamento.
Os Police actuaram em Lisboa na noite passada, num Estádio Nacional que, longe de cheio, proporcionou ainda assim uma recepção calorosa à veterana banda inglesa.
Não é preciso ter assistido à primeira passagem de Sting, Andy Summers e Stewart Copeland por Portugal, há precisamente 27 anos, para perceber que o ambiente do concerto de ontem nada, ou quase nada, terá tido a ver com o de 1980, no Restelo. Em 2007, a visita de grandes estrelas do pop-rock - e do próprio Sting - a Portugal já não constitui novidade, pelo que a plateia que, em noite de esplêndida lua cheia, aguardava o trio de Zenyatta Mondatta era essencialmente uma assistência familiar.
A BLITZ ainda encontrou, porém, alguns 'resistentes' à passagem do tempo, e isto fora do palco. Foi o caso de dois amigos do Porto que se deslocaram propositadamente a Lisboa para ver os Police, depois de já terem assistido ao famoso primeiro concerto de 1980. 'Eu estive no Vilar de Mouros com o Elton John, ainda ele não era conhecido!', recordava o Sr. Bessa, 65 anos no BI e muito rock na memória, enquanto com mais algumas dezenas de espectadores calcorreava a berma da auto-estrada e procurava atalhos, entre o mato, para a porta principal do Estádio do Jamor.
à entrada do recinto, muita gente comprava ainda bilhete. Em alguns casos, os interessados tentavam fazer uso da promoção levada a cabo por uma operadora móvel que, na compra de um ingresso, oferecia uma segunda entrada. No meio da confusão, um longo veículo negro de vidros fumados e com escolta policial virou algumas cabeças: seria Sting o ocupante?
Lá dentro, os Fiction Plane, banda liderada pelo filho de Sting, abriam o espectáculo. De voz impressionantemente parecida com a do pai, Joe Sumner apresentou-se - também - em formato de power trio, misturando os ecos reggae dos Police com guitarras pós-punk via Bloc Party. A receita surtiu efeito num público ainda pouco numeroso mas que, no dizer de Joe Sumner, foi o mais amável da digressão. 'Venham-nos dizer olá!', incentivou Sumner Jr, antes de ceder lugar à banda do pai.
Foi ao som de 'Get Up Stand Up', de Bob Marley, que as luzes do estádio se apagaram para que as do palco se acendessem e os três Police, quase invisíveis ao longe, se perfilassem no horizonte. Com a luz de centenas de telemóveis erguidos no ar, soam os primeiros acordes de 'Message In A Bottle', pujante desde logo. 'Tudo bem, Lisboa?', gritou Sting, que ao longo do espectáculo se dirigiria várias vezes, em português, aos admiradores.
Com 'Synchronicity II' chegaram, para gáudio de todos os que não viam o concerto na primeira fila, os ecrãs gigantes: quatro laterais, mostrando imagens da banda e animações coloridas, e três atrás, exibindo Sting, Andy Summers e Stewart Copeland, por vezes em separado. 'Muito obrigado a todo o mundo. Estou muito feliz de estar aqui com vocês', insistiria Sting, cuja habilidade para aprender a tocar instrumentos se estende, pelos vistos, ao domínio de línguas estrangeiras. Seguir-se-ia outro dos temas mais conhecidos dos Police, 'Walking On The Moon', que gerou um dos primeiros coros monossilábicos (leia-se 'yeo - ye oh oh oh') da noite.
Aparentemente mais satisfeito do que durante a última actuação no Rock In Rio, Sting metia conversa e pedia palmas, não só para si como para Stewart Copeland e Andy Summers. Quem da história da banda conheça apenas os hits, ficará a pensar que entre estes três nunca houve mais que amizade. A guerrilha interna parece, nesta altura do campeonato, coisa do passado; os músicos garantem mesmo ter usado os ensinamentos da paternidade para aprenderem a lidar, novamente, uns com os outros.
Mas se são senhores de idade - e currículo - respeitável que temos à nossa frente, não se tema que os Police façam, em 2007, música de embalar. Apesar de alguns hits propositadamente desacelerados ('Don't Stand So Close To Me', 'Every Little Thing She Does Is Magic'), o concerto ofereceu-se de igual forma à contemplação - nos momentos exploratórios como 'Hole In My Life' e 'Wrapped Around Your Finger' - e à participação. A excelente 'Can't Stand Losing You', com a tónica reggae bem acentuada, ou a inevitável 'Roxanne', com luzes vermelhas a sublinhar a 'solenidade' do acontecimento, foram dois dos momentos mais celebrados da noite.
Certamente que em 1980 os Police não se entretinham a esticar as músicas com solos de guitarra ou arremedos jazzy, mas estas obras de remodelação não parecem ter provocado danos graves às fundações dos temas, na sua maioria contagiantes por natureza. Outra surpresa positiva foi a postura de Sting: se é ele quem, com o baixo omnipresente e uma voz que pouco falha, comanda o espectáculo, a impressão que fica, pela dinâmica em palco, é a de que os Police são a sua banda, e não uma simples banda de suporte ao ilustre vocalista.
Já no encore, brilharam 'King of Pain', 'So Lonely' e 'Every Breath You Take', a famosa música sobre obsessão que público e destino adoptaram como canção de amor.
Com 'Next To You', interessante descarga de energia quase punk após duas horas e pico de música controlada, os Police disseram adeus a Portugal sob uma fortíssima ovação. Sting, aparentemente a única pessoa sem frio no estádio inteiro, terminou o concerto sem casaco e dando um pequeno salto - estamos em crer que o único da noite. Stewart Copeland batia insistentemente no peito, como que dizendo que leva Portugal no coração. Deverá ter sido a última actuação dos Police no nosso país e, apesar de a temperatura entre o público não ter estado sempre ao rubro, dificilmente os 'três da vida airada' podiam ter assinado melhor despedida.
© Blitz